domingo, julho 11, 2010

E Falando de Toráh.......

E Falando de Toráh.......


Rabino Shlomo Itzchak (Rashi), que faleceu em 29 de Tamuz de 4865 (13 de Julho 1105)


Rashi, o maior exegeta da Bíblia e do Talmud, um dos maiores codificadores da Halachá e um dos buriladores da língua hebraica, nasceu e morreu em Troyes, no norte da França (1040 – 1105).

Costumava acercar-se dos grandes estudiosos da Torá de sua geração para aprender com eles. Segundo a tradição, viajava pelos países da Diáspora, segundo o costume dos tzadikim (justos) da França e Alemanha daquela época.

Uma lenda conta que Rashi, viajando de um lugar a outro, chegou às terras do Oriente, lá encontrando um frade estudioso, que também vagava pelo mundo. Ele começou a discutir com Rashi sobre crenças e idéias, e ficou muito admirado ao constatar que o sábio judeu tinha respostas inteligentes para todas as suas questões. Um dia, o frade ficou seriamente doente e Rashi, que conhecia também algo de medicina, ficou a seu lado e tratou-o como amigo e como médico, até que ele se recuperou.

Quando o frade ficou inteiramente curado, Rashi foi-se despedir dele para continuar sua viagem; o frade quis recompensá-lo com presentes caros, mas Rashi recusou-se a receber, dizendo:

- Não me deves nada. Embora nossas religiões sejam diferentes, somos todos humanos, e fomos criados à imagem de D’us. Um dos preceitos da nossa Torá é ajudar a qualquer pessoa necessitada. Mas tenho um pedido a fazer-te: se algum judeu precisar de teu auxílio, ajuda-lhe, conforme eu fiz quando tu estavas necessitado.

Quando Rashi retornou à sua terra natal, depois de anos vagando por terras distantes, passou por Praga. Já era então muito conhecido como grande exegeta da Torá e do Talmud. A coletividade judaica de Praga recebeu-o com grandes honrarias. Velhos e jovens foram a seu encontro para homenageá-lo em sua chegada.

O duque de Praga odiava os judeus; ao ter conhecimento de que os judeus prestavam tais homenagens ao forasteiro, ordenou que ele fosse preso e levado à sua presença.

Entre os hóspedes do duque achava-se um bispo muito importante – o mesmo frade que Rashi encontrara nas terras do Oriente. Quando Rashi foi levado à presença do duque, o bispo reconheceu-o, ergueu-se e foi a seu encontro, apertou-lhe a mão e abraçou-o fraternalmente. O ex-frade contou ao duque como Rashi havia tratado dele quando estivera enfermo, e o duque libertou Rashi.

Enquanto isso, ao ver que Rashi fora preso, o populacho havia iniciado um pogrom, invadindo as ruas do bairro judeu e causando danos e destruição. Mas quando o duque libertou Rashi, ordenou que o pogrom fosse cessado imediatamente e castigou os culpados.

Desde então – termina a lenda – o duque tornou-se um amigo do povo judeu e beneficiou os judeus de Praga até o fim de sua vida.

sábado, julho 03, 2010

CABALÁH:O SEGREDO DOS SONHOS

CABALÁH:
O SEGREDO DOS SONHOS

Não é muito difícil afirmar que cada pessoa sonha, ou que alguma vez sonhou. Ao despertar de um sonho agradável ou de um pesadelo, é natural que surjam uma série de interrogantes e o impulso lógico é buscar respostas no campo secular, sem pensar que a Toráh, que contempla cada aspecto da vida, desde o mais significativo ao mais mundano, nos proporciona um acúmulo de informação que serve de guia e tem a virtude de ser verídica. É surpreendente a quantidade de referências que existem, além da Toráh, no Talmud, no Midrash, na Hagadáh, as obras filosóficas, nos códigos de leis judaicas e especialmente nos escritos místicos da Cabaláh e da Chassidut.

Os sonhos têm uma vida tão longa quanto a do ser humano. Alguns dos sonhos relatados na Bíblia têm caráter profético. O Talmud afirma que os sonhos contêm importantes predições e Maimônides assevera que muitos profetas viram suas profecias em sonho.

O primeiro sonho profecia, o teve o Patriarca Avraham, quando fez o Pacto com D’us e Este lhe assegurou que seria pai de um povo números. Neste momento ele ficou adormecido e, em sonhos, ouviu a voz de D’us, o Qual predisse o futuro de sua descendência, seus sofrimentos no desterro e sua recompensa. O segundo sonho profético o teve o Patriarca Iahacov, quando fugia do seu irmão Essav e viu a escada que chegava até o céu, pela qual ascendiam e descendiam anjos. D’us lhe falou de cima da mesma, prometeu-lhe proteção e fecundidade e assegurou-lhe que esta terra pertencia à sua descendência. O terceiro sonho profético é o de Iossef, o dos feixes no campo, o sol, a lua e onze estrelas que se inclinam diante dele. Logo se relata a explicação que Iossef deu aos sonhos do copeiro e do padeiro do Faraó, bem como a interpretação dos sonhos do próprio faraó, que se cumpriram com os sete anos de abundância e os sete anos de seca e fome.

As fontes bíblicas e Rabínicas distinguem entre os sonhos proféticos e os chamados sonhos normais, que podem expressar aspectos pessoais cuja importância depende não só da compreensão de quem os sonhou, mas da perspectiva objetiva que outro lhe possa acrescentar. Os sonhos podem conter uma mensagem ou ser a expressão da configuração dos pensamentos que a pessoa armazenou.

O ponto crítico é que os Sábios do Talmud consideram que as pessoas não sonham para satisfazer um desejo - seja este de ordem sexual, como o postula Freud, de poder, segundo Gustav Adler, ou de uma inspiração cósmica e transcendental, como o afirma Carl Jung. Muito mais que isso, eles vêm os sonhos como expressão de toda uma ampla gama de idéias que vai desde acontecimentos quotidianos, não assimilados, até o mais profundo simbolismo; desde desejos irracionais à racionalidade; da moralidade à sabedoria inconsciente - uma função muito importante do processo mental que, eles supõem, pode ser potencial para inspiração divina.

Outra característica comum dos sonhos é a linguagem simbólica, aquela na qual as experiências, sentimentos e pensamentos são expressos como se fossem vivências sensoriais ou eventos do mundo real.

É uma linguagem com uma lógica diferente à que temos quando estamos despertos, está governada por intensidade e associação em vez de por tempo e espaço; é universal, e a raça humana a desenvolveu em forma constante.

O Talmud fala da necessidade de interpretar os sonhos; um sonho mau pode transformar-se em um bom, o que se chama "melhorar o sonho", pois ao se interpretar para o bem, o bom se cumprirá, sendo certo também o contrário. Os reis de outrora contavam entre seus assessores com pessoas com a habilidade na interpretação dos sonhos; houve sábios judeus que se dedicaram a esta disciplina e no Talmud se fala de 24 especialistas neste assunto que residiam em Jerusalém e eram generosamente retribuídos por seu ofício.

Sonho e exílio

O tempo do exílio do povo de Israel, a Galut, foi comparada com um sonho, pois está escrito nos Salmos 126:1: "Quando D’us fizer retornar os exilados de Sion, será como se houvéssemos sonhado". Como se viu, num sonho podem coexistir os opostos, os paradoxos, as contradições, como o ladrão que pede a D’us ajuda para obter êxito na sua faina; ou como o homem que enquanto está rezando se sente próximo de D’us mas que logo da prioridade às necessidades do corpo e aos prazeres mundanos.

Em termos macrocósmicos, o mundo se considera dormindo, incapaz de reconhecer a Divindade que o permeia; só percebe o tangível, a realidade física, e considera a espiritual um mito, já que esta não está revelada. Este estado de sonho, para o mundo em geral e para os judeus em particular, só persistirá até a chegada de Mashiach. Neste momento, o mundo se aperfeiçoará e a Divindade ficará a descoberto. A revelação Divina, como a luz da manhã, despertará os dormidos filhos de Israel. Assim como a luz do dia segue à escuridão da noite, do mesmo modo a luz revelada virá depois da escuridão do exílio; será o fim das contradições, o final do sonho; a mudança total de um momento a outro, o despertar do mundo para uma nova era.

O ponto de vista místico

Considera-se que quando a pessoa dorme, sua alma se libera das limitações e vínculos que o corpo lhe impõe na vida diária. A alma tem cinco níveis: Nefesh, que é o impulso vital; Ruach, que nos permite funcionar; Neshamáh, Chaiáh e Iechidáh. Na medida que o nível é mais espiritual, menor é a restrição da alma. As pessoas que têm todos os níveis ativos durante o dia são os Profetas, através dos quais fala D’us; aqueles que têm os quatro níveis ativos, podem ter visões proféticas; com os três, sonhos, intuições e premonições.

A alma pode ser comparada a um periscópio que vê tudo o que os olhos não podem ver, e a pessoa dormida libera a alma do que o consciente não aceita. O Zohar diz que quando a pessoa dorme, a alma se eleva e retorna à sua fonte; lá se refresca e logo retorna para começar de novo cada dia com vigor e energia. É realmente o corpo que deve descansar; a alma não vai dormir, faz o que lhe corresponde no seu âmbito. Se a pessoa leva uma vida de santidade, uma vida honesta e clara durante o dia, a alma sobe rapidamente e isto se reflete nos sonhos positivos, agradáveis, significativos, Quando se tem uma atitude negativa ou de pessimismo, geralmente os sonhos têm a mesma natureza; a alma fica então estancada num lugar entre a alma e o corpo e produz-se o que se conhece com o nome de "pesadelo".

Quando estamos acordados, somos seres racionais, ativos, realistas; ao dormir, passamos a um tipo de existência totalmente diferente; podemos conceber coisas que nunca ocorreram, na realidade coisas sem antecedentes. Algumas vezes somos os heróis, outras os vilões, em belos cenários ou em cenas de terror. Mas a maioria dos sonhos compartem a característica de não se limitarem às leis da lógica que governam nosso pensamento consciente. Descuidam-se as categorias de tempo e espaço: pessoas falecidas podem estar de repente vivas, acontecimentos que vemos como parte do presente podem ter ocorrido há muitos anos. Também não se presta maior atenção ao espaço. Podemos nos trasladar de um lugar a outro com rapidez, estar em dois lugares ao mesmo tempo, fundir duas pessoas numa ou converter uma pessoa em outra. Nos sonhos somos criadores de um mundo onde o tempo e o espaço que limitam todas as atividades de nosso corpo, não têm nenhum importância em absoluto e, contudo, têm a característica de serem reais, tão vivos que nos fazem questionar a realidade, com a desvantagem de que são rapidamente esquecidos ao acordar.

A interpretação dos sonhos não pode ser feita em forma homogênea. Embora os símbolos comuns e universais precisam ser considerados, é necessário se basear nos fatores pessoais, pois símbolos iguais podem significar coisas distintas para pessoas diferentes.

Exemplos de elementos simbólicos nos sonhos.

Fontes:

Talmud Babilônico, Tratado de Berachot

Rins ou cabeça: se refere à pessoa que sonha

Ombros: à esposa

Braços: a amigos e familiares

Extremidades: aos filhos

Burro: pode se esperar salvação

Uvas brancas na temporada ou fora da mesma: são um bom sinal

Trigo: paz

Figueira: preservar o aprendido

Romã ou azeitonas: prosperidade nos negócios

Galo: se espera um menino

Ovos: petição suspensa; se quebra, se cumpre (O mesmo acontece com nozes, pepinos e coisas de vidro que podem quebrar).

Serpente: a vida está assegurada

Morte: longa vida

Todos os animais são bom sinal menos o macaco e o elefante;

Todas as frutas menos as tâmaras não maduras;

Todas as cores, menos o azul.

segunda-feira, junho 28, 2010

Houve uma vez uma melodia

Houve uma vez uma melodia



Quando Rabino o Israel Baal Shem Tov

Via calamidades comovedoras,

Estava acostumado a ir a um lugar no bosque,

Unir-se aí com sua alma.

E prendia aí um fogo,

e rezava uma oração,

e com isso era suficiente...


E quando chegou seu discípulo, o Maguid do Medzritsh.

a pedir piedade por seu rebanho,

estava acostumado a ir ao mesmo lugar no bosque

e conversava com seu criador:

“Senhor do Universo...

Eu não sei prender o fogo

mas a oração sim sei

e deve ser suficiente com isso”...

E com isso era suficiente...


E quando chegou o turno do Rab Moshê Leib do Sasob

Para salvar às pessoas do decreto,

Estava acostumado a ir ao mesmo lugar no bosque,

e cantarolava com voz quebrada:

“Senhor do Universo...

Eu não sei prender o fogo, nem tampouco sei a oração,

mas conheço o lugar no bosque,

e deve ser suficiente com isso”

E com isso era suficiente...


E quando veio Rabino o Israel do Rodjin

A resgatar a seus seguidores da desgraça,

Estava acostumado a sentar-se na poltrona, em seu quarto,

com a cabeça entre suas Palmas:

“Senhor do Universo...

Eu não sei prender o fogo

Nem tampouco sei a oração.

Tampouco conheço o lugar no bosque.

Eu somente sei narrar a história

E deve ser suficiente com isso”

E com isso era suficiente...


Senhor do Universo...

Nós não sabemos prender o fogo

E nunca aprendemos a oração.

Não conhecemos o lugar no bosque

Nem tampouco a melodia dessa história.

Mas há uma coisa que sabemos,

E certamente não é suficiente:

Só isto nós sabemos

–Que houve uma vez uma melodia. . . .

domingo, junho 27, 2010

Aprendendo com a Cabaláh

Um Aprendizado da Cabaláh


Os Cabalistas ensinam, baseados nas Sagradas Escrituras que somos responsáveis por tudo que acontece em nossas vidas.


Não existe vítima,


Não existe acaso,


Não existe acidente.


Nós mesmos podemos atrair todos os eventos de nossa vida.


Quer saber qual a causa de qualquer acontecimento negativo?


É o comportamento em relação a outras pessoas, seja nessa vida seja em vidas passadas, é a força de ação e reação no mundo espiritual.


Tratar outro ser humano não como seu ser igual, fazendo dele maior ou menor, é a causa espiritual das doenças e de qualquer forma de caos. O caos que enxerga-se na vida material, é uma transformação do produzido no interior dos seres humanos.


E a cura deve vir da alma, da transformação espiritual. Da mudança de rumo, de deixar procurar fantasias e ilusões e compreender que a essência do ser humano está em desenvolver o interior em procura de conquistar suas paixões.

Quando nos tornamos pessoas melhores, conectamo-nos com a Força do Criador.


A fonte de toda plenitude e cura.


Seja o melhor que puder ser para todas as pessoas ao seu redor: elas fazem parte da sua vida.


Com elas ou por elas, terás a paz que procuras no coração.

Paz  no interior é o primeiro grã passo para crescer, ascender e realizar todos ou grã parte dos objetivos na vida.

Esquecer a relação com outro e perder a dimensão humana, negar a luz do interior de cada um. Harmonia se da na medida que não deixamos de lado nossas raízes.

segunda-feira, junho 21, 2010

Maimônides, O Grande Mestre.

Maimônides


Resumos biográficos

Maimônides. Moshé (Moisés) Ben Maimón, Sefaradí, conhecido entre os muçulmanos como Abu Imram Musa ben Maimun Ibn Abdalá, e no ocidente por Maimônides - o Rabino, Médico, Filosofo, Astrônomo Judeu, nasceu em 30 de março de 1135, na Aljama de Córdoba

Córdoba foi um admirável centro cultural na Espanha medieval. Contava um milhão de habitantes, sessenta mil edifícios, oitenta colégios e três universidades, e uma biblioteca de setecentos mil volumes manuscritos. Córdoba tornou-se um centro cultural judeu a partir do rabino Moshé ben Janóh.

Sobre a família de Maimônides se sabe que seu pai, Rabí Maimón Hadayán, foi um matemático, astrônomo e talmudista famoso nos círculos intelectuais de Córdoba e Toledo. Seu irmão David era comerciante de jóias e sua irmã Shulamit foi dedicada secretária que em excelente caligrafia redigiu e copiou suas obras. Pouco se sabe sobre a mãe de Maimônides, senão que era filha de um açougueiro e que não chegou a criar o seu filho Moisés pois morreu de complicações do parto. Diz uma lenda que o Rabí Maimón a desposou devido a um sonho no qual Elias lhe ordenou que a desposasse e que teria um filho que "iluminará os olhos de todo Israel".

Devido aos cuidados de seu pai, Maimônides dominou muito cedo as matemáticas, a astronomia, a filosofia e a física. Quando em 1148 o sul da Espanha foi conquistado pelos Almohads, uma seita fanática do Corão, os judeus e cristãos foram obrigados a emigrar para não perderem a vida, a menos que adotassem a fé muçulmana. A família seguiu para Almería, sul da Espanha, em 1151, e depois para Fez, no Marrocos, em 1159, onde o disfarce muçulmano seria mais facilmente praticado. Porém, porque um professor do jovem Maimônides foi descoberto praticando o judaísmo e por isso executado em 1165, a família de Maimon deixou Fez desta vez para a Terra Santa – Eretz Israel, e de lá retornando ao Egito, onde havia tolerância ao judaísmo. O exílio aumentou sua determinação de conhecimento e desde então inicia suas primeiras obras: um trabalho sobre os termos da lógica, um comentário ao Talmud babilônico em árabe e um manual em hebreu para o Talmud hierosolimitano intitulado "Leis de Jerusalém", e um tratado sobre o ajuste do calendário lunar ao calendário solar.

Trabalhou por dez anos em seu trabalho mais importante, "O Toráh revisado" – “Mishnê Toráh”, uma brilhante sistematização da doutrina e leis judaicas.

Em 1166 Maimônides perdeu seu pai e seu irmão David, este morto em um naufrágio. Deprimido caiu enfermo por um ano. Para sustentar-se, decide então ser médico. Contraiu matrimônio já com certa idade e teve o filho Abraham, um erudito que foi Príncipe e dirigente Espiritual do Judaísmo egípcio. Em 1176 ele começou a obra em que trabalharia por 15 anos, seu clássico em filosofia religiosa "O Guia dos Perplexos" – “Morê Nevuchim”, uma contribuição importante para a compatibilização entre a ciência, a filosofia e a religião que depois foi traduzido na maior parte das línguas européias. Em 1187 Maimônides é médico da Corte do famoso sultão Saladin. Faleceu aos 60 anos de idade, a 13 de dezembro de 1204. Seus restos mortais foram trasladados a Tiberíades, em Israel.

Maimônides classificou a medicina em três divisões: a preventiva, a curativa e a que atendia aos convalescentes, inválidos e anciãos. Escreveu trabalhos de medicina como "Extratos de Galeno", uma seleção do que considerava o mais relevante entre os ensinamentos de Galeno, "Comentário sobre os aforismos de Hipócrates", onde critica outros pontos de Hipócrates; "Aforismos médicos de Moisés", com a descrição, diagnóstico e tratamento de várias doenças; "Tratado sobre as hemorróidas"; "Tratado sobre as relações sexuais", escrito para um sobrinho de Saladino e onde descreve alimentos e drogas afrodisíacas e antiafrodisíacas. y descreve a fisiologia sexual. Este tratado é também intitulado "Livro da Santidade", porque aconselha moderação na atividade sexual, fala das leis concernentes às relações ilícitas, das relações entre o judeu e o pagão, bastardos, descendência sacerdotal provada ou não provada, aspectos generais relativos ao matrimônio e castidade, carnes e outros alimentos proibidos permitidos para o consumo humano, tudo sob o aspecto da lei na regulação da vida íntima e social; "Tratado sobre a asma", com o regime dietético e climático apropriados para os asmáticos. "Tratado dos venenos e seus antídotos"; "Regime da saúde"; e com recomendações gerais sobre higiene do corpo e higiene ambiental. No Mishnê Toráh, ele descreve as regras sobre a supremacia e a nobreza da vida humana. Segundo ele, o homem deve manter sua saúde física e seu vigor para que seu espírito se mantenha lúcido, em condições de conhecer a Deus, pois é impossível compreender as ciências e meditar sobre elas quando se está enfermo ou faminto.

terça-feira, junho 15, 2010

Anos Elásticos


Quando o criador de modas, o dono de um hotel, o vendedor de abrigos ou um salva-vidas na praia de Tel Aviv falam do “ano que vem”, cada um deles têm em mente um período de atividades diferente – a jornada de trabalho de cada um – cujo começo e duração também são distintos um do outro.

Isto nos explica por quê, no Talmud, o tratado de ראש השנה (Rosh HaShanáh, o Ano Novo judeu) começa com a afirmação de que, na realidade, existem quatro “começos de ano” diferentes. Um deles é o que vamos celebrar em setembro: o da conta do calendário hebreu. Porém também existem “o ano novo dos reis e das festas de peregrinação”, o do “dízimo dos animais” e o “das árvores” (Talmud Rosh HaShanáh, cap. 1, Mishnáh 1).

Trouxemos à lembrança tudo isto para explicar por quê o conceito de “ano” é algo muito elástico, que varia de pessoa para pessoa, apesar das folhas do almanaque – seja ele hebraico, gregoriano ou outros que há no mundo – pareciam unir-nos em torno de um único eixo temporal.

Além disso, o termo hebreu שנה (Shanáh, em hebraico, ano) provém da raiz ש - נ - ה (SH-N-H), que indica a idéia de “diferença, distinção”. Com um verbo derivado desta raiz, quando chega a festa de Pêssach (Páscoa), nossos meninos perguntam-nos ao começar a cerimônia: מה נשתנה (máh nishtanáh) – O que diferencia esta noite das outras?

Quais mudanças ou diferenças são aludidos por este termo שנה (Shanáh, “ano”)?

As da natureza, sem dúvida. A sucessão das estações do ano quando, no período de tempo que transcorre de um outono a outro produz-se uma série de trocas no mundo que nos rodeia. As que ocorrem na duração do dia e da noite, na temperatura do meio ambiente, na cor do céu coberto por nuvens que se tornam chuva ou não, na perda das folhas das plantas e sua posterior volta a florescer, na migração dos diferentes animais, etc.

Tudo isto muda constantemente ao longo do ano, num ciclo vital que volta a repetir-se uma e outra vez. Entretanto, aqui em Israel a passagem de um clima a outro é muito curta, e até seria melhor falar de uma estação longa e quente – o verão – e uma mais curta, chuvosa e fria – o inverno – separadas por outonos e primaveras muito breves, de apenas umas poucas semanas. Em novembro, tarda entre sair à rua com camisas de manga e sandálias e, em poucos dias, encasacados, com pulôveres e sapatos fechados; ou vice-versa em março ou abril.

Além disso, a etimologia da palavra שנה (shanáh, “ano”) também pode ajudar-nos a explicar melhor algumas idades um pouco prolongadas em certas passagens bíblicas, especialmente em seu primeiro livro Bereshit ou Gênesis. Lemos ali as idades que alcançaram os três patriarcas do povo judeu: Avraham, 175 anos; Yitschak, 180 e Yaakov, 147. E, acerca da esposa do primeiro deles – Saráh –, conta-nos a Bíblia que teve um filho, Yitschak, quando ela havia passado os 90 anos (Bereshit-Gênesis, cap. 17, vers. 17) e já havia deixado de ter “costume como as mulheres” (Cap. 18, vers. 11), a menstruação, entrando no que hoje denominamos menopausa.

Não queremos pôr em dúvida os números que nos apresenta a Bíblia. Porém, em todas estas datas, que talvez pareçam “exageradas”, atrevemo-nos a oferecer uma nova interpretação à palavra שנה, shanáh: uma “mudança” ou uma “diferença” na natureza, ou seja, cada uma das principais estações de Israel, tal qual descrevemos. Então os noventa “anos” de Saráh seriam, na realidade, uma sucessão de 45 verões e outros tantos invernos, que somados dão 90, ou seja, 45 anos “dos nossos”. E, então, nessa idade crítica para as mulheres, quando parecia que Saráh já havia cessado sua faculdade de procriar, algum óvulo que todavia restava deu origem a seu filho Yitschak. Aos 45 anos, sim... porém, aos 90!?

E, no capítulo 5 do livro, poderíamos dar enfoque também às idades de Adam e seus descendentes, que chegam a superar os 900 anos. Se considerássemos שנה – shanáh – como a mudança de uma lua nova a outra, ou seja, meses lunares, e dividíssemos cada um desses números por 12, chegaríamos a idades de sessenta, setenta ou oitenta anos “dos nossos”.

Resumindo, a chave não estaria em considerar exageradas ou errôneas as cifras que nos são dadas pelo texto bíblico, e sim numa interpretação de modos diferentes do vocábulo שנה, shanáh.

Porque até hoje, o conceito de “ano” é algo muito elástico...

segunda-feira, junho 14, 2010

Nosso papel na Comunidade
Conta-se uma historia sobre o ocorrido em uma cidadezinha. Típica cidade do interior, contava com uma pequena comunidade judaica e apenas uma sinagoga. Um dia, pareceu na porta do templo e também no jornal comunitário uma noticia que impressionou a todos: "Com o mais profundo pesar, comunicamos a morte da nossa congregação. O féretro partira da sinagoga rumo ao cemitério, no domingo, às 11h."

Bem podia tratar-se de uma brincadeira, mas todos os anúncios vinham com o carimbo da congregação e a assinatura do rabino. "Deve ser serio" – pensavam.

No dia marcado, a sinagoga esta cheiíssima. Nunca se tinha visto tanta gente de uma só vez. Ha tempos, aquela que outrora fora o centro da comunidade, andava vazia. Mas não naquele dia. Todos esperavam ansiosamente pelo rabino, a fim de perguntar-lhe quem havia falecido. Afinal, a comunidade era pequena e todos se conheciam. Estavam todos la. "Quem será o defunto?" – se perguntavam.

De repente, o shamash (bedel) apareceu, empurrando um carrinho com um caixão. Era, de fato, um caixão; não havia duvidas. Colocou-o defronte a Arca Santa e, puxando uma cadeira, sentou-se ao seu lado.

Subitamente, ouviu-se um choro. A congregação paralisou. Com seus trajes rasgados, o velho rabino apresentou-se diante dos fieis com a aparência de quem havia perdido um ente muito próximo. "Meu Deus" – gritou uma senhora – "será que sua esposa faleceu?" Não. Ela estava lá. "Ai, não!. Será que foi seu filho, seu único filho?" – exclamou outra. Ele também estava lá, bem como sua nora, seus netos e bisnetos. Todos estavam lá.

Não faltava ninguém.

Mas nada disso importava. Todos se lembravam do rabino sorridente, acalentador, tranqüilo. Vê-lo neste estado era deprimente. Mesmo não sabendo o motivo, lagrimas começaram a verter de alguns olhos. Atentos, os fieis esticavam-se para ouvir e ver melhor. Nem respiravam.

O rabino dirigiu-se ao púlpito. Fez uma predica muito simples, mas extremamente emotiva. Mesmo quem não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, comoveu-se. Já no fim, em tom misterioso e compassivo, olhou para o caixão, depois para a comunidade e disse:

"Creio, meus filhos, que a nossa congregação não possa mais ressuscitar.

Não sou D’us, nem tenho poderes extraordinários, mas vou fazer uma ultima tentativa. Enquanto rezo, com a maior fé possível, vocês, em fila indiana, vão passando para ver o cadáver".

Dito isso, o shamash se levantou e abriu o caixão. Parou ao seu lado e começou a observar lá dentro.

Um frenesi tomou conta dos mais velhos. "Que absurdo!" – gritavam – "Isso não é um costume judaico!" Porem, os mais jovens se levantaram e formaram a fila e eles foram atrás. O desfile começou lentamente e, ao passar, todos olhavam, curiosos e admirados, para o caixão.

Como no fundo havia um espelho, cada um via seu próprio rosto dentro do caixão.

No fundo no fundo, esta história, apesar de ser uma fictícia parábola, acontece com todos nos. Nossas instituições estão ai, nossas escolas, nossas sinagogas, cada vez mais vazias, cada vez menos freqüentadas. Muitos acreditam que basta ser judeu nas Festas e comemorações, outros acham que ser judeu é apenas uma questão de fé. Com isso, acabam desprendendo-se de sua responsabilidade comunitária – seu papel na sociedade judaica – em sua comunidade, a responsável por nossa existência durante milênios. "E problema dos outros" – pensam.

Houve alguém no passado que pensava da mesma forma. Caim, inconformado com a graça que seu irmão Abel alcançava perante D’us, resolveu matá-lo. A grande lição moral destas ultimas Perashiot (porções semanais ou leituras semanais) lidas no Livro Bamidbar (Números – 4º Livros da Toráh – A Lei de Moises) esta na pergunta que D’us fez em seu devido momento a Caim: Aieca? - onde você esta? Caim, após ser questionado sobre seu irmão, responde com outra pergunta: Acaso sou guardião de meu irmão?; Lembremos que as letras que compõem a palavra Aieca, são as mesmas de Eicha, que significa lamentar. Muitas vezes lamentamos nossas apatias, quando estamos frente ao “caixão”, enxergando nossas próprias atitudes.

Esta pergunta nos é feita diariamente: Aiénu? - Onde estamos nós? Acaso estamos cuidando de nossos irmãos como deveríamos? Somos responsáveis por eles?

Sim, somos. Kol Israel are vim zé lace - todos somos responsáveis uns pelos outros (Talmud Shavuot 39a). Fazemos todos parte de um imenso corpo - um pequeno "problema" mal tratado e todo o conjunto pode estar comprometido. Um pequeno gesto pode modificar completamente o presente e construir um futuro melhor.

Se quisermos que o jargão "continuidade judaica" deixe de ser um slogan; se quisermos – como pensou (assim coincide entre outros Elie Wiesel), que judeu é aquele cujos netos continuam sendo judeus – ter orgulho de proporcionar a nossas famílias uma autentica vivencia judaica; se quisermos, sobretudo, evitar o funeral de nossa Historia, então, é hora de agirmos! Pois, com a "morte" espiritual de nossa tradição, seremos nos os sepultados. Nosso rosto é que estará’ no esquife do desprezo e irresponsabilidade.

A pergunta é: onde estamos nós? Onde esta cada um de nos.